16 de Nov de 2009

A Frase

No calor da paixão, enquanto lhe enfiava a mão dentro das cuecas e lhe sentia as nádegas e o rêgo do cu, acho que lhe disse – acho, porque não tenho bem a certeza: “Anda… Despe-te! Despe-te e abanca-te na minha fuça!”. E ela parou. Parou imediatamente como se tivesse sido fulminada por um raio, ainda que não tivesse caído para o chão a fumegar. Parou e, por um momento, olhou-me fixamente como, além da surpresa de ter sido atingida por um raio, descobrisse de repente que estava a beijar um alienígena – eu, pelo menos, sob o olhar escrutinador dela senti-me como se fosse de Marte.
E eu também parei, claro – era ridículo continuar sozinho – mas não percebi a razão da paragem abrupta, pois, claramente, ela não tinha sido abrasada por um raio, nem eu sou de Marte – ainda que, às vezes, consiga levá-las à Lua.
Então, depois do curto mas confrangedor silêncio que enquadrou a inexplicável interrupção do nosso caminho para o satélite, do olhar nada devoto com que me brindou como se eu tivesse dito alguma coisa espantosa, ela tentou conter uma onda de risinho nervoso que explodiu em tão descabidas quanto sonoras gargalhadas, entre pedidos de desculpa e tentativas infrutíferas de abafar com a mão na boca as gargalhadas que não paravam. E eu já nem me sentia de Marte, não percebendo nada de nada, nem o motivo de fosse o que fosse, parecia-me que tinha passado a infância, a adolescência e quase toda a idade adulta em Urano ou coisa parecida. “Mas que fiz eu? O que terei dito de tão estapafúrdio que a leve a isto?”, perguntava-me em ânsias, afogado na dúvida, na sexualidade interrompida e na certeza de que nada daí em diante iria ser como eu previra.
E, claro, ainda que já o antecipasse, também não percebi a razão do “desculpa-me, não consigo” que ela disse enquanto se levantava e compunha sem parar de rir – menos os olhos, que me parece que os olhos dela nunca riram como a boca, o corpo ou a garganta; os olhos nunca abandonaram uma espécie de desolada e opaca irritação que ganharam depois de um primeiro e fugaz brilho de espanto.
“E eu fico assim?” perguntei, perplexo mas com bons modos que não me apetecia manter.
Ela olhou-me e as pálpebras ainda se afastaram um pouco mais, se isso era possível, o que eu, pensando agora à posteriori e lembrando-me do seu primeiro olhar, duvido muito. “Assim como?” perguntou sem parar de rir, enquanto endireitava a saia e repunha as cuecas no seu sítio.
E eu calado, sem perceber o motivo da interrupção, sem compreender a razão do esfriamento gargalhado da paixão, sem entender o motivo de ela em vez de se despir estar a compor o que ainda mantinha vestido, procurava com esforço e concentração normalizar a respiração, que o afogueamento não é uma boa base para iniciar um diálogo.
Há anos assim, de seca e penúria, como se as calotes polares já tivessem derretido e andássemos todos em calções e camisolas de cavas aos buraquinhos à espera de uma pinga de chuva e, de repente, quando estamos na rua a apanhar os primeiros pingos na tromba, numa felicidade inominável, num expectativa deslumbrada, apanhamos com um bloco de gelo em cima que nos esmaga todos os ossinhos, que nos congela quase instantaneamente e que nos mirra o membro para proporções microscópicas. Não sei se ela é do bloco mas que me esmigalhou todinho, lá isso esmigalhou.
Se ainda não perceberam nada do que se estava a passar e chegaram até aqui, tenho de vos dizer duas coisas: a primeira é que vos gabo a paciência, a segunda é que vos estais a sentir um pouco como eu me senti: perdido, aparvalhado e arrependido de estar ali – no vosso caso, aí.
Se, por acaso, chegaste agora, segue daqui que eu resumo: homem, mulher, sozinhos, beijos, amassos, mãos exploratórias, roupa a começar a sair, até que ele lhe diz “abanca-te na minha fuça” e, depois, silêncio, imobilidade e, de repente, risos, perplexidade, risos, perplexidade… já deves ter percebido e se queres continuar estás por tua conta e risco.
Agora que uma pausa emperrou a narrativa, podia aproveitar e abrir um parêntesis para falar de sentimentos, dos sentimentos naquela ocasião, mas acho que não vale a pena; se os havia acabaram ali – ou talvez não, o que sabe um narrador, ainda que escreva na primeira pessoa?
Fechado o parêntesis e ultrapassada a pausa para o narrador se dirigir a vossas excelências, poderia seguir a narrativa mas a realidade – a realidade é tantas vezes tão bisonha, tão absurda, tão marcada por uma frase infeliz, por um gesto de que logo nos arrependemos. A realidade é má e atropela-nos! – A realidade, dizia, é que não há mais nada para contar. Nada.
É certo que ainda houve coisas mas nada mais foi o mesmo, os olhos dela não ganharam brilho, eu não percebi nada (e continuo sem perceber) e o que houve – que é como se não tivesse havido – foi feito a despachar: vamos lá a acabar com isto e adeus.
Que pouca sorte a minha...

11 de Nov de 2009

Diária Reduzida

– E quando me quiseres mandar passear, manda – afirmou o homem, teatralmente sério, pousando a chávena de café. – Não me sugiras passeios.
– Desculpa?
– Porque é que percebes tão bem umas coisas e outras não? – questionou ele após uma curta pausa, franzindo as sobrancelhas e cerrando os lábios, no fim.
Ela constatou em silêncio mas com ar trocista o cerrar dos lábios e o obtuso movimento dos apêndices pilosos, esperou que estes aquietassem e perguntou com ar desafiador:
– Estás a falar de quê?
– Se queres saber – começou ele, hesitante, com a expressão mudada, comprometida. Ela percebeu a mudança e acenou positivamente com a cabeça. Ele completou de um fôlego: – Se queres saber, não sei o que temos e não sei se quero ter o que temos.
A mulher contraiu os seus lábios finos, exageradamente vermelhos, passou a mão pelo cabelo, demasiadamente liso, e, num tom especialmente meloso, declarou:
– Não estou a perceber, Luís. – Ela mantinha os cantos da boca descaídos mas os olhos sorriam maliciosamente, distraindo-o. – Não sabes o que temos?
Ele anuiu com um movimento subtil da cabeça. Ela continuou:
– Não sabes se queres ter o que não sabes que temos?
Ele repetiu a ratificadora cabeçada. Ela continuou:
– Ou não sabes se queres ter o que não sabes se temos?
O homem ponderou a pergunta, sem cabeçadas nem movimentos de apêndices pilosos ainda que não se sentisse nada confortável, e esclareceu, sem certezas:
– Não sei se quero ter o que não sei que temos – rodou a chávena do café e concluiu: – porque temos alguma coisa, isso é certo… O se… O se temos… – gaguejou, calou-se e, após mais uma volta da chávena sobre o pires, acabou por reformular a frase dizendo-a como se encontrasse a fórmula correcta: – Não sei se quero ter o que temos, que eu, de qualquer forma, não sei o que é.
Ela olhou-o com o mesmo brilho trocista nos olhos e agora um trejeito quase sorridente nos lábios e, aveludando a voz, perguntou:
– E o que tem isso que ver com eu te mandar passear em vez de te sugerir passeios?
Ele tossiu, repetiu os estafados movimentos das sobrancelhas, que acompanhou com um hesitante encolher de ombros e, antes que a chávena enjoasse com mais uma volta sobre si própria, a mulher, sem levantar o volume ou alterar o tom, avançou:
– Não me queres comer, é?
Surpreendido com o modo e o tom da pergunta, o homem a quem ela chamava Luís engasgou-se na sua própria tosse.
Ela insistiu:
– Já não me queres comer?
Disse-o a sorrir mas ele não via, nem queria. De cabeça baixa, imaginava-lhe os olhos verdes, brilhantes, troçando ternamente de si, picando-o, convidando-o…
– Quero – disse o homem, levantando a cabeça.
Ela olhava-o, agora sem expressão definida, de olhos postos nos dele.
– Eu pensava que era isso mesmo que tínhamos… Que temos – corrigiu. – Julgava que era isso que nos ligava…
– Eu querer-te comer? – Interrompeu ele, pouco à vontade com a crueza da expressão.
Ela riu, gozando com o seu atabalhoamento, e atacou:
– Tu quereres comer-me?! Não! Nós querermos comer-nos.
– Ah!
– Mas porque julgam os homens que a antropofagia sexual é um exclusivo masculino?
– Desculpa?
– Sim, vocês continuam a julgar que são os machos dominantes, que são caçadores e que nós somos as presas… Ah!... Haviam de ter sido bons tempos… Pelo menos, para vocês. Era tudo muito mais simples, admito…
– O que raio é a antropofagia sexual?
– Ainda estás aí?
– Desculpa?
– Ainda estás a pensar no que é a antropofagia sexual?
– Sim, estou… É a vontade de nos comermos uns aos outros?
– Uns aos outros?!... – Ela olhou-o com uma careta. – Hum… Não sei porquê mas isso não me soou muito bem. Tu queres comer outros?
– Outras! Eu não quero comer outros, eu quero comer outras!
– Outras?! Porquê eu não te chego?
– Não é isso! – reclamou ele, com ar pomposamente ofendido.
– Não, então é o quê?
Ele arrastou um “Ah!...” como se tivesse sido apanhado de surpresa, abriu um sorriso e esperou que ela dissesse alguma coisa. Ela, que sabia que os silêncios o aborreciam, levantou as sobrancelhas, olhou-o com cara de caso e esperou pela resposta dele.
Ele engoliu em seco, sem saber o que dizer.
Ela insistiu:
– Afinal, eu chego-te ou não?
– Chegas – anuiu ele. – Não só me chegas como me ultrapassas.
– Queres dizer, então, que não queres comer outras?
– Não.
– Não queres dizer ou não queres comer?
– Não quero comer.
– E a mim?
– Quero.
– Eu chego-te?
– Bates-me?
– Se quiseres…
– Estava a brincar.
– É pena…
– O quê?
– Nada… Dizes tu que eu te chego? – Ele concordou. – E que, afinal, apesar de não saberes o que temos e de não saberes se queres ter o que nem sabes que temos me queres comer… – Ela chegou ao fim da frase quase cansada e resumiu: – No meio dessa tua complicação, o que sabes é que me queres comer.
– Sim, quero.
– A mim e à tua mulher.
– À minha mulher?
– Sim, não a andas a comer… Não a andas, legitimamente, a comer?
– Raramente.
Ela olhou-o, franziu o nariz, abanou a cabeça e disse:
– Não vamos por aí.
Ele anuiu em silêncio, com uma careta.
– E afinal – recomeçou ela –, não percebi, no meio disto tudo e ao mesmo tempo, queres que te mande passear?
– Sim.
– Queres?!
– Não.
– Não?! Ainda agora disseste que sim… Queres ou não?
– Acho que devia querer. Queria querer que sim…
– Querias querer querer que eu te quisesse mandar passear?
– Não, queria só querer que me mandasses passear.
– Mas não queres?
– Quero querer mas não consigo querer… Não, não quero.
– Porquê?
Ele encolheu os ombros, deixou que lhe surgisse um sorriso interesseiro e um brilho no olhar e declarou, baixando os olhos:
– Gosto dos teus seios.
– Mamas – retorquiu ela depois de franzir o sobrolho, com um sorriso. – Mamas.
Ele levantou os olhos e gostou do sorriso.
– Mamo.
Ela riu. Ele coçou a bochecha direita. Ela riu mais.
– Não é isso – esclareceu. – Mamas – repetiu entre gargalhadas.
– É isso – respondeu ele. – Gosto das tuas mamas.
– Das duas?
– Nunca tinha pensado nisso – disse ele, depois de uma pausa que repetiu, como se pensasse nos assuntos. – Acho que sim… Sim, gosto das duas por igual – respondeu cheio de certeza.
– E de mim?
– De ti?
– Sim, de mim, a portadora das mamas. Gostas?
– Muito.
– Parece que cresceste – comentou ela, sarcástica.
– Que cresci?
– Sim – disse ela enquanto dizia que não com a cabeça. – Ainda agora parecias um miúdo, um miúdo complicado, cheio de incertezas, sem saberes o que querias ou o que deixavas de querer… Um adolescente cheio de dúvidas e remorsos, que queria querer que eu o quisesse mandar passear e, de repente, olhas-me para as mamas e, como por magia, estás um homem feito.
Ele encaixou as palavras dela sem pestanejar, aceitou-as com um sorriso e declarou a sua concordância muda com movimentos ascendentes das sobrancelhas. Pousou duas moedas em cima da mesa para pagar os cafés. Levantou-se, estendeu-lhe a mão, que ela agarrou, e, de mãos dadas, seguiram em passo decidido e determinado.

4 de Nov de 2009

Agentes

(parece-me, mas posso estar enganado, que isto poderá ter continuação e que, de alguma forma inconsciente e involuntária, é parte de outra coisa que ficou por aí algures e que se chama "calor". se nada disso se concretizar, ou seja, se não tiver continuação nem se inserir no tal "calor", fica assim e pronto.)


O desabafo foi feito a negro muito escuro com laivos de vermelho vivo, vermelho sangue, vermelho ódio e encheu-lhe a boca até as bochechas arredondarem como um balão:
– A puta saiu-me cara – cuspiu com nojo e evidente desejo de que eu o ouvisse, de que eu me espantasse. – A puta saiu-me cara – ruminou, baixando o tom e mastigando as palavras seguintes que não consegui perceber.
Ergui a cabeça, olhei-o de frente e, logo antevendo o que se ia passar a seguir, vi-o pousar o cotovelo na mesa, a mão segurar o queixo e os dedos taparem a boca, dando por terminada a confissão. A puta saira-lhe cara ponto final, quem era a puta e quão cara lhe saíra eram perguntas que escusava de fazer. Os dedos encostados aos lábios sinalizavam de forma definitiva a conclusão do desabafo.
Irritou-me.
Irritou-me como sempre me irritava a sua misantropia selectiva, os seus desabafos interrompidos e a sua coscuvilhice contida mas não havia nada a fazer, o homem era assim. Do nada uma declaração bombástica. O pixel mais apelativo, mais descarado, mais interessante de uma imagem que eu nunca iria ver na totalidade. Para quê? Para quê dizer-me, naquele tom, com aquelas cores, com aquele ar, que a puta lhe saíra cara, se depois nada mais adiantava, nada mais explicava? Que se lixasse! A puta saiu-lhe cara? E eu com isso?! Aguenta-te e deixa-te de lamúrias!
– Está um calor do caraças – constatei, dobrando as mangas da camisa. Usávamos ambos camisa branca de mangas compridas, uma gravata escura e um fato escuro de calças sem pinças e casaco com dois botões igualmente escuros. E estava, efectivamente, um calor do caraças.
– Não podes tirar o casaco – disse-me ele, libertando a boca e o queixo da opressão silenciadora da mão e dos dedos, depois de olhar para mim, olhar em volta e agitar-se nervosamente na cadeira.
– Já tirei – respondi, desapertando ligeiramente o nó da gravata e desabotoando o primeiro botão da camisa.
– O que estás a fazer?! – perguntou.
Pensei em responder “A desapertar ligeiramente o nó da gravata e a desabotoar o primeiro botão da camisa” mas, como isso era evidente e já está escrito, limitei-me a encolher os ombros e a olhar em volta à procura de alguém que nos servisse.
Ele não ficou satisfeito e insistiu:
– Desapertaste ligeiramente o nó da gravata e desabotoaste o primeiro botão da camisa?
– Foi.
– Não podes.
– Não?
– Não – confirmou. – Nem tirar o casaco.
– Está um calor do caraças – justifiquei, repetindo-me.
– Já tinhas dito.
– É verdade.
– E que fosse – sibilou ele como se me ameaçasse. Gostei da resposta e do tom mas não lho disse. Era evidente que estava um calor do caraças mas o tipo não o admitia. Estávamos bem treinados, era o que era. Pousou a palma da mão direita no tampo da mesa, fixou-me e rosnou suavemente: – Nada justifica que um agente, em local onde possa ser visto, tire o casaco, arregace as mangas da camisa, desaperte ligeiramente o nó da gravata e desabotoe o primeiro botão da camisa.
– Está um calor do caraças, estamos numa esplanada e viemos beber qualquer coisa fresca – disse eu, sentindo que falava para uma parede –, não vejo como é que o facto de eu tirar o casaco, arregaçar as mangas da camisa, desapertar ligeiramente o nó da gravata e desabotoar o primeiro botão da camisa nos pode prejudicar seja no que for.
– Vai contra as regras. Diminui a nossa imagem de seriedade, competência e eficácia. Põem em causa a nossa segurança. Prejudica o funcionamento da instituição e de todos os agentes...
– Eu tirar o casaco?
– Boa tarde – interrompeu a empregada da esplanada, surgindo nas costas do meu colega.
– Boa tarde – cumprimentei. Era gira e simpática, a moça. Sorri contra o meu colega. Sorrir a empregados, quaisquer empregados, também ia contra as regras.
– Digam? – inquiriu a empregada, mantendo o sorriso.
Aliás, sorrir era contra as nossas regras. Não o podíamos fazer senão com intuitos maléficos ou para sublinhar o nosso mau feitio e desumanidade. Talvez não fosse tanto isso: não éramos assim tão maus. Mas, a verdade, é que os sorrisos estavam proibidos. Quanto muito um sorrisinho sonso, que revelasse a nossa condescendente superioridade em relação ao resto da humanidade.
– Eu não quero… – O meu colega fez uma curta pausa e rectificou com ar enfastiado para me atingir: – Eu já não quero nada!
Sem dificuldade, a empregada reconheceu-lhe a nuca como a nuca de um cliente difícil e ignorou-o, arregalando as sobrancelhas e sorrindo-me com simpatia acrescida.
– Eu quero uma imperial e um pires de camarão do rio – pedi, retribuindo-lhe o sorriso.
A expressão com que o meu colega me encarou era a mesma que a empregada via olhando-lhe para a polida nuca: vazia, seca, dura e fria.
– Não queres uma imperial, tens a certeza? – perguntei-lhe.
O seu olhar a dar com a nuca esclareceu-me.
– É só? – perguntou a empregada só para se meter comigo, a malandreca.
Acenei com a cabeça, com as sobrancelhas, com os olhos, com os lábios, com o corpo, com… Acho que acenei demais e ela riu-se e foi-se embora mas havia de voltar.
– Elas voltam sempre – murmurei como um maluquinho, contemplando atentamente o movimento e forma das nádegas da empregada a afastar-se enquanto andava suave mas resolutamente em direcção ao balcão.
– Tu és um bocado parvo, não és? – disse o meu colega, sabendo que nem sempre o ponto de interrogação significa uma pergunta e, neste caso, manifestamente não significava. E sem me deixar contrapor o que quer que fosse à sua conclusão, continuou: – Ouve lá, nós não viemos aqui para lanchar.
– É só um pires, são dois minutos.
– E tens de vestir o casaco e abotoar o botão.
– Quando formos embora – repliquei e passei ao contra-ataque, senão tinha mesmo de vestir o casaco, abotoar o botão e ajeitar a gravata: às terças-feiras ele era o superior. – Que conversa era aquela?
Ele percebeu logo a pergunta mas fez que não, como se isso me demovesse.
– Estás a falar de quê?
– Da puta.
– Qual puta?
– Da que te saiu cara.
– Ah! – exclamou como se não soubesse, o sacripantas. – Estás a ver a empregada? – perguntou-me, inopinadamente.
– Estou – disse eu, depois de a procurar, encontrar e sorrir para ela. – É gira.
– Suspende lá esse sorrisinho idiota e faz-lhe sinal que eu quero uma imperial.
– Deixa-a vir, sempre é mais uma vez que ela vem ao pé de nós…
– E que depois se vai embora – gracejou ele, ainda com a expressão dura e fechada de um agente em serviço mas com um brilho compreensivo e travesso no olhar que lançou de esguelha ao vidro da montra da pastelaria, para que eu percebesse que, também ele, a tinha visto afastar-se e também apreciara o que vira.
– O chefe é que sabe – disse eu.
Ele olhou-me, houve um laivo de espanto que logo afastou com uma treinada capa de fleumática e firme indiferença pelo que ouvira e pelo que ia perguntar e fê-lo no tom que correspondia à expressão:
– Que dia é hoje?
“Já foste”, pensei, com a certeza que o cabrão me acabara de entalar.
– Quinta-feira.
– A escala mudou?
– Não.
– Queres dizer que, este mês, as terças, quintas e sábados são meus.
– Eu não quero dizer…
– Mas são.
– São.
– Então, veste lá o casaquinho e aperta o botão e o nó da gravata e deixa-te de conversas.
– Já?
– Já.
Se há coisas que nós sabemos, e todos os outros às vezes parecem esquecer, é que há hierarquias e que as ordens são para cumprir.

28 de Out de 2009

Vinho Novo

"Deus, pátria e família", declarou o maneta, empertigando-se.
"O quê?!", indagou o coxo, pousando o copo.
"Ateu, livre e libertino", replicou prontamente o marreco, batendo com as palmas das mãos na mesa encardida.
"E gajas?" indagou o coxo, farto de discussões movidas a álcool, limpando os beiços arroxeados do martelado vinho novo. "Vamos mas é embora, que vocês não dão uma para a caixa e daqui a bocado a Palmira já não nos deixa entrar!"
"Isso é que não pode ser", enxofrou-se o maneta, levantando-se e emborcando o resto do copo.
"Nem pensar!", concordou o marreco, depois de, já de pé, beber o resto do vinho. "Vamos mas é embora que se não aparecemos as gajas ficam todas tristes!"
O coxo riu, levantou-se e caiu.

26 de Out de 2009

A Praia

Subitamente, no meio da chuva, do vento e do frio que o enregelavam até aos ossos, a praia veio-lhe à ideia.
Olhou para o camião tombado, com a frente desfeita e meio submersa na água, para a carga de areia espalhada entre a estrada, a ponte e a margem do rio e viu uma duna perfeita...
Tirou os sapatos, as meias, as calças rotas e a camisa suja de sangue e caminhou com cuidado, como se a areia encharcada e gelada lhe pudesse queimar os pés. Sentiu um sorriso tomar-lhe conta do rosto e entrou na água com um ligeiro arrepio de frio, alivio e satisfação.
Mergulhou e, enquanto era arrastado pela água fria e remoinhosa, abandonou-se alegremente à conclusão de que "Cadáveres não pagam pontes, camiões ou cargas de areia! Cadáveres não pagam nada!"

22 de Out de 2009

A Espera

– Sexo! Sexo! Sexo! – repetiu indignado o leitor casual de uma revista feminina, fechando-a. – Orgasmos, brinquedos sexuais, fetiches, como fazer isto e aquilo… Meu Deus! Tudo gira à volta do sexo… É demais! – Decretou o homem, largando a revista com exagerado desprezo, esperando a concordância do involuntário parceiro de espera no apertado consultório, e, como se o silêncio entorpecido do outro fosse uma desfeita sem perdão, perguntou-lhe directamente: – O senhor não acha que se dá demasiada importância ao sexo?
O encolhido parceiro de espera olhou para ele e logo para além dele, para um ponto indefinido na vazia parede lateral da minúscula saleta que ocupavam e, depois de um profundo e sentido suspiro, enquanto girava embaraçado a aliança, confessou desolado:
– Na minha casa, não.

15 de Out de 2009

O tratamento

O homem sai e fecha a porta atrás de si, deixando o médico, o enfermeiro e a auxiliar entregues à rotina habitual que se segue a um exame.
O médico vira-se para o computador e começa a escrever.
O enfermeiro limpa com descuidado cuidado a máquina onde o paciente estivera e onde vai estar o próximo.
A auxiliar, depois de acompanhar o homem à porta, aproxima-se da impressora de onde começam a sair as imagens efectuadas no exame, que recolhe e ordena.
– Mas tu conhece-lo? – pergunta o enfermeiro, deitando os toalhetes utilizados na limpeza para o caixote do lixo.
O médico ainda levanta os olhos do teclado e das imagens que resultaram do exame e que a auxiliar entretanto já trouxera da impressora mas, ainda que perceba a pergunta e esteja igualmente curioso, torna a baixá-los e fica disfarçadamente à espera da resposta.
– A quem? – questiona a mulher, depois de uma hesitação silenciosa em que procurou os olhos do enfermeiro para perceber que a pergunta lhe era dirigida.
– Ao doente… – diz o homem. A auxiliar reforça o olhar de incompreensão. Ele explica: – Estavas a tratá-lo por tu... Tu isto, tu aquilo... Conheces?
– Conheço-o daqui – informa a auxiliar, sem dar importância à questão.
– Só daqui? – intromete-se, inadvertidamente, o médico.
A auxiliar sente a pergunta e a implícita insinuação ou censura, sem se conseguir decidir por nenhuma.
– Sim – responde, ainda assim melindrada. – Só o conheço daqui.
– Mas estavas a tratá-lo por tu – insiste o enfermeiro.
– Desculpa, para a próxima trato-o por você – diz a mulher, tentando concluir a conversa, enquanto coloca a ficha da doente seguinte ao lado do teclado que o médico usara e pergunta apontando a ficha: – Posso chamar, doutor?
– A mim não me tens de pedir desculpa – diz o enfermeiro, após uma ligeira pausa em que remoeu várias possibilidades de resposta e, ao mesmo tempo, tentava perceber porque se tinha ele metido naquele assunto que, claramente, não lhe dizia respeito.
– Pode, pode chamar o próximo – decide o médico, olhando a ficha da doente. – E diga ao doutor que, se quiser, se pode ir embora, que eu logo, ao fim da tarde, falo com ele…
– Qual doutor? – interrompeu, nervosa, a auxiliar.
– O teu amigo – mordeu o enfermeiro, com sorridente prontidão.
O médico olhou o enfermeiro com dureza e, de imediato, tornou a fixar a auxiliar, para que ela não respondesse, e concluiu:
– O doutor, o doente que saiu agora daqui.
– Não sabias que ele era doutor? – malhou o enfermeiro, com ar trocista.
– Sabia…
– Pronto – interrompeu o médico. – Vá lá chamar a D. Genoveva.
A mulher anuiu, respirou fundo e dirigiu-se à porta. Rodou a maçaneta e, antes de a puxar e abrir a porta, perguntou dirigindo-se ao enfermeiro:
– E quando eu der o recado ao doutor trato-o por tu, por doutor ou V. Exa. deseja que eu o trate de outra forma qualquer?
– Eu não quero nada – replicou o enfermeiro, aborrecido. – Por mim, tratas o homem como quiseres…
– Ah… Pronto, se é assim.
A mulher puxou a porta.
– Eu só achei estranho que tu estivesses a tratar o doente por tu, só isso – justificou-se o enfermeiro, encolhendo os ombros. – Só isso – repetiu com ácida bonomia, para ter a última palavra.
A auxiliar encostou a porta e, sem largar a maçaneta, disparou:
– Se o homem é simpático, é da minha idade, ouve-me com deleitosa atenção…
– Deleitosa?! – espantou-se o enfermeiro, gozando.
– Se não sabes o que é, vais ver ao dicionário!
– Sei.
– Mas isso não interessa nada, Henriques – menosprezou a mulher. – Onde é que eu ia?
– Ainda há mais? – disse o enfermeiro.
– Ia em que o homem é simpático, da sua idade e ouve-a com deleitosa atenção – enunciou o médico, como se lesse um relatório.
– Sim – sorriu a enfermeira. – Isso – e continuou: – Se o homem me ouve com deleitosa atenção, me olha com velada voracidade, se procura disfarçada e educadamente os espaços entre os botões da bata para me ver o contorno e volume das mamas, se procura divisar na lisura da bata a linha das minhas cuecas e a forma das minhas nádegas, se me sorri com os seus olhos brilhantes e um sorriso envergonhadamente guloso e sem malícia, que me anima e envaidece, porque é que eu não o hei-de tratar por tu?
O enfermeiro manteve-se calado, sem resposta, ainda que não fosse essa a sua vontade. O médico abanava ligeiramente a cabeça para cima e para baixo e sorria espantado.
– Eu não te trato a ti por tu? – perguntou a mulher fixando o enfermeiro. – Que me olhas sem vergonha, que me tiras as medidas com um despudor pornográfico, que me comes com os olhos não sei quantas vezes por dia sem sequer disfarçares, que te babas bovinamente para o meu decote, que te esqueces do resto quando me fixas o cu como se fosses um perdigueiro a apontar a caça, que… Que… – A enfermeira cerrou os lábios, ergueu as sobrancelhas, abanou a cabeça, abriu a porta e saindo virou-se para trás e perguntou: – Afinal, quem é que eu devia tratar por tu?

12 de Out de 2009

Razão tinha o meu bisavô

- Então, senhor António, está melhor?
- Melhor?!... Quem me dera... Quem me dera... Mas, graças a Deus, não tenho melhoras nenhumas.

2 de Out de 2009

A Boa Conversa

– Parabéns – diz o mais velho, estendendo a mão ao mais novo que acabara de entrar.
– Obrigado – agradece prontamente o mais novo não conseguindo evitar um sorriso que lhe transfigura a expressão seca e fechada com que entrara.
– No fim de contas acabei por ajudá-lo… – resmunga com um sorriso contraditório o mais velho.
– Involuntariamente – replica o mais novo, de pronto.
– Sim, claro.
– Pois foi – reconhece o mais novo, com um imperceptível suspiro de alívio.
– O senhor é ardiloso… – graceja o mais velho.
– Faz-se o que se pode… Faz-se o que se pode.
O mais velho dá uma palmada descontraída nas costas do mais novo.
– Vamos mas é sentar-nos.
O mais novo sorri.
– Julgava que estivesse chateado comigo.
– O senhor é assim, o que hei-de eu fazer?... Se o escolheram…
– Ah… – O mais novo espera que o mais velho se sente e só depois o imita. – O interesse nacional obriga-o a gramar-me! – diz em jeito de chalaça.
– Sabe o que eu lhe digo?
O mais novo abana a cabeça na horizontal. O mais velho aproxima-se dele e sussurra:
– O interesse nacional é uma entaladela do pior… – diz com ar pesaroso, que termina abruptamente quando ergue as sobrancelhas resignadas e concluiu retomando a sua posição no cadeirão, enquanto encolhe ostensivamente os ombros: – Mas isto é o país que temos, ou melhor, é o país que somos e que ajudamos a fazer ou…
O mais novo, com ar grave e sério, concorda com simpáticos acenos de cabeça.
O mais velho interrompe-se, ajeita-se no cadeirão e decide:
– Adiante!
O mais novo concorda com uma cabeçada no ar à sua frente.
– Vamos mas é ter uma boa conversa – dizem em coro e, surpreendidos com a simultaneidade da frase, soltam uma descontraída gargalhada ante a estupefacção aparvalhada do pequeno chefe da casa civil.

29 de Set de 2009

Simplicidade em tons laranja

A senhora bufou, rebufou e tornou a bufar.
– E agora? – perguntou e repetiu a anterior dose de desesperado bufamento enquanto mirava e remirava a longa mesa de reuniões só para ver as caras baixarem ou os olhos fugirem como fracos assobios para o ar de crianças apanhadas em falta. – Sim, não me dizem, e agora?
– Agora… – O movimento de cabeças, de pescoços, de corpos, de cadeiras, de olhos, de sobrancelhas arremelgadas e bocas abertas de espanto à procura do dono da voz foi tanto e tão ruidoso que a bufante senhora não conseguiu conter um sorriso, que ninguém viu, e o autor do “Agora…” se sentiu compelido a parar, a fazer uma pausa e a respirar fundo antes de continuar: – Agora, a senhora doutora demite-se. Qual é a dúvida?

25 de Set de 2009

Outro período de reflexão

(Passados quase cinco anos recupero um post da véspera das anteriores eleições legislativas. (Quase) cinco anos depois está tudo pior - e não falo só de já não dar o anúncio da Sagres com a Daniela Cicarelli. Na verdade, está tudo muito pior - o que ninguém imaginou que fosse possível (não, nem sequer o Medina Carreira.)

Período de Reflexão

Eu, sozinho em casa, sentado no sofá, quieto e com as mãos pousadas sobre os joelhos, a olhar para a televisão apagada. Calor fora de época e silêncio sepulcral.
A campainha toca. Levanto-me devagar, com ensaiado estilo. Há uma teatralidade excessiva nos meus movimentos como se estivesse a ser filmado. Caminho lentamente, tão lentamente que a campainha torna a tocar. Mantenho o passo para não prejudicar o estilo.

Ponho a mão no puxador. Hesito. Olho pelo óculo. Hesito. O som estridente da campainha regressa. Rodo a chave e abro a porta, muito devagar.
- Oi - cumprimenta-me a brasileira, toda promessas, chupando languidamente um chupa ("Um chupa misto?" podia perguntar mas não o faço).
- Olá - respondo, tão entusiasmado como se estivesse num velório.
- Posso? - pergunta ela, constatando a minha falta de movimento para a deixar passar. Não sei porquê olha-me para as mãos, vazias.
- Ó Daniela... - balbucio-lhe o nome em tom pesaroso. Olho-a sem expressão (mas cheio de estilo, claro) e informo-a lacónico, ainda que com um ligeiro sotaque brasileiro que não consigo evitar: - Hoje não dá.
- Mas... - Ela olha-me desolada. - Mas... - repete, rodando languidamente o chupa sobre a língua. - Tem a certeza? - pergunta num sussurro provocante com um sotaque de veludo, terminando com os lábios envolvendo o chupa que empurra e puxa devagar.
Engulo em seco e respiro fundo para ganhar coragem:
- Hoje é o período de reflexão - explico, apontando para os alvos dos dardos com as trombas dos candidatos. - Desculpa, Daniela, mas tenho de continuar a reflectir - e fecho a porta, suave mas resolutamente ante o olhar magoado e o beicinho triste da brasileira.

22 de Set de 2009

A Sentença

A função decorria normalmente, com um pouco de gel lubrificante dada a ausência preliminares e desenvolvia-se agora num modorrento e pastelão entra e sai que era mais uma espécie de obrigação conjugal do que um acto desejado, quando ele, como se a conversa já estivesse a decorrer ou, pelo menos, como se não o estivessem a fazer, continuou – que é a palavra certa, porque a forma como ele o disse dava a entender um diálogo prévio que, no entanto, apenas ele tinha ouvido:
– E eu acho que nos falta qualquer coisa.
Satisfeita com a interrupção – o gel tinha sido pouco e o dia longo – ela não fez qualquer menção à estranheza da situação e apenas perguntou:
– O quê?
– Não sei – respondeu o homem de imediato.
Ele, sem pensar nem julgar, sentiu-lhe o movimento das ancas propondo o afastamento, e retirou-se completamente de dentro dela, erguendo-se nos braços e nas pontas dos pés.
– Mas qualquer coisa de quê? – insistiu ela, em tom quase simpático.
Ele hesitou, afinal não se tinha vindo, que era o seu principal, senão único, móbil para a função mas prescindiu sem custo da triste descarga e concentrou-se na resposta que queria dar.
– Não sei – ouviu-se repetir.
Ela olhou-o, sentiu o peso afastar-se e, por uma vez, decidiu dar-lhe tempo para se justificar.
– Acho que nos falta qualquer coisa – recomeçou ele. – Que o acto de fazermos amor… Nem sei se ainda lhe chame assim…
– Fazermos amor?
– Sim.
– Como é que lhe querias chamar?
– Não sei mas não me parece que isto que ultimamente fazemos seja fazer amor.
– Débito conjugal? – propôs ela, legalista.
– Débito conjugal – repetiu ele, deixando escapar um risinho envergonhado e fraco. – É capaz de ser mais isso.
– Mas não queres fazer?
Era notório que não queria. Que não queriam.
– Quero, claro que quero – respondeu ele, diplomaticamente mas sem conseguir dar qualquer inflexão de verosimilhança à voz.
Ela ouviu-o e concluiu que, se ele ainda estivesse encima dela, lhe tinha dado uma joelhada nos testículos cheios. Nada diplomática, é certo, mas bem mais honesta que a resposta dele. Feliz pela impossibilidade da joelhada e por se ter lembrado dela, ela imaginou-o aos gritos a contorcer-se com dores e sorriu, diluindo o “quero, claro que quero” na vasilha das bem intencionadas mas completamente falhadas respostas masculinas.
– Não digas isso… – A voz saia-lhe doce, compreensiva, ainda que ela não percebesse porquê. – Não queres, pois não?
– Assim não – confirmou ele, depois de uma pausa. – É tudo demasiado mecânico. É como se estivéssemos a cumprir uma obrigação.
– E não estamos? – troçou a mulher com um sorriso breve. – Afinal, não estamos casados?
Ele ajeitou-se na cama, com um grunhido desaprovador.
Ela respondeu à sua própria pergunta:
– O débito conjugal é um dos deveres dos cônjuges, integra-se no dever de coabitação, legalmente previsto no artigo…
– Não me vais dar uma lição de direito, pois não? – interrompeu ele.
– Não – respondeu ela, contrariada: estava a gostar de se ouvir falar. – Mas não é por eu me calar que deixa de ser menos verdade – rematou acintosamente.
– Talvez.
– E não é um simples dever – recomeçou ela.
– Não?
– É um dever e um direito – declarou a mulher, panfletária. – Todos os cônjuges, homens ou mulheres, têm direito ao prazer sexual!
– Acho que a ideia do legislador ao aprovar o Código Civil não era bem essa – replicou o homem.
– Claro que não era – reconheceu ela, de pronto. – Mas isso agora não interessa nada, meu caro, os tempos são outros e o débito conjugal tanto é um direito que nos assiste como um dever que temos de cumprir.
– Visto assim…
Ela ergueu as sobrancelhas e permitiu-se sorrir, feliz com a encolhida concordância dele.
– Visto assim até parece uma coisa boa! – concluiu ele, mostrando-lhe a língua.
A mulher emparedou o sorriso com um ar sentido e grave, semicerrou as pálpebras, fixou-o com o mesmo ar decidido e frio com que normalmente fixava os arguidos na sala de audiências e perguntou:
– Essa língua de fora é um convite ou uma participação de algo que me vais fazer?
Os olhos dele não esconderam um sorriso brilhante, a cara sim.
– Por momentos, parecia que me ias condenar – disse ele, sem lhe responder. – Que ar tão sério.
– E condeno-te – aproveitou ela –, condeno-te a usares a língua para cumprimento dos teus deveres conjugais, para satisfação integral do teu dever de coabitação e para a execução imediata da pena conjugal a que te condenaste quando casaste comigo.
– Sim, Meritíssima – anuiu ele, num sussurro, lambendo-a lentamente a caminho do local do cumprimento da pena.

16 de Set de 2009

PME

A Assembleia-Geral da sociedade comercial aproximava-se do fim. Ia acabar como sempre: devido ao adiantado da hora – já eram horas de almoço – e não, nunca, pela conclusão da ordem de trabalhos.
Naquele dia, como em todos os outros, a reunião magna da pequena empresa familiar com tantos sócios como empregados e só um pouco menos gerentes seguiu os trâmites instituídos: nenhuma decisão essencial, num crescendo de exaltação dos ânimos de parte dos presentes à medida que se iam acumulando os assuntos e os respectivos ressentimentos, antigos ou modernos, verdadeiros ou imaginados.
As várias alterações da representação do capital social que foram resultando da morte de vários dos sócios fundadores, das consequentes entradas no capital e nas assembleias dos herdeiros, filhos e netos, maridos e mulheres – não havia representação, havia multiplicação –, não acabava com as velhas questiúnculas, pelo contrário, exacerbava-as, pois, permitia a recriação da história – por ausência de parte dos intervenientes ou por conhecimento em segunda mão dos factos, necessariamente, tendencioso e dogmático dos herdeiros; e a obrigação de cada um mostrar-se aos demais, pró e contras, obrigava a posições mais rígidas e radicais.
E, de repente, enfastiado, farto, cheio das vozes e das palavras dos outros, o único sócio original presente levanta-se de forma teatral, empurra a cadeira com as pernas fazendo-a quase cair, pousa as palmas das mãos sobre a mesa à sua frente, fulmina os presentes com um olhar mortífero e, com a experiência e ratice de outras guerras, exclama tonitruante:
– Sabem… – Faz uma pausa para saborear o silêncio quase respeitoso e alguns olhares tementes e recomeça no mesmo tom: – Todos sabem que eu falo sempre pela verdade e pelo recto…
– Pelo que é recto ou pelo recto? – pergunta, abafada, uma voz de riso, interrompendo o patriarca.
– Mas… – grita o interrompido, em fúria. – Mas quem é o presidente da Assembleia-Geral?
– É o senhor – respondem duas ou três vozes da vassalagem.
– E interrompem-me?! – A cadeira já recuou mais meio metro e o tampo da mesa parece queimar tal a rapidez com que as mãos pousam e se erguem. – A mim?! Eu não estou aqui a brincar e não admito que brinquem comigo…
– Eu… – acusa-se o engraçadinho – só queria um esclarecimento.
O ancião olha de alto o herdeiro de uma parte indistinta de uma quota qualquer e abana pesaroso e condescendente a cabeça enquanto sentencia:
– Há pessoas que não sabem ouvir a verdade, que não querem ouvir a verdade e…
– E que não sabem nem querem ouvir rectos!
– Ah! – exclama o presidente da assembleia-geral percebendo finalmente a maldosa interpretação do sobrinho espertinho. – Acaba-se já! – grita tentando sobrepor-se às gargalhadas, às discussões que se iniciam. – Acaba-se já esta merda! – berra.
– A ordem de trabalhos… – começa alguém.
– A ordem de trabalhos que se… – o velho hesita, reflecte e altera: – A ordem de trabalhos que se lixe! Não há condições para continuar. É uma falta de respeito.
Os lugares sentados estão vagos, a mesa não é suficiente para tantas mãos. Há encontrões, punhos cerrados, dentes a ranger, olhares que se pudessem matavam e berbigotos a voar à doida.
O mais velho agarra no livro de actas e, contrariado, bate na mesa com estrondo.
– A mesa não tem culpa – sussurra sibilante ameaçando a canalha. – Silêncio – grita. – Silêncio ou têm de sair!
Os lugares sentados permanecem vagos, a mesa continua a não ser suficiente para tantas mãos. Ainda há encontrões, os punhos continuam cerrados, os dentes rilhados, os olhares homicidas e os berbigotos num festim incontrolável.
– Merda! – berra a plenos pulmões o antitabagista presidente. – Ou se calam ou eu evacuo!

8 de Set de 2009

Escuta: 09.09.01. 23:53_Não validada

(Deve-se dizer que esta é uma "obra" de ficção e que, provavelmente, qualquer semelhança com acontecimentos e pessoas reais será mera coincidência.)

– Zé?
– Sim.
– Toma nota: 91…
– Já está, vou só buscar um cartão novo.
– Ok. Até já.


– Pedro?
– Sim.
– É dos novos?
– Virgem.
– Boa… Desculpa lá ser assim mas é que o caso é grave e não podemos arriscar. Estás sozinho?
– Estou. O que é que se passa?
– É sobre aquilo, pá, a mesma porcaria de sempre. Há novos desenvolvimentos e temos de decidir já, Zé... Temos de tomar uma decisão.
– Então?
– Há novos dados, pá…
– Foda-se! Há?!...
– Há... E sérios, Zé. Os gajos estão a chegar lá, pá, e o Ruca já me disse que não vai assobiar para o lado, não pode… Há muita merda, meu!
– E quem é que sabe?
– Para já, a gaja, por isso é que te estou a ligar...
– A gaja já sabe?!
– Já e vai arrancar sexta com isso e segundo parece com mais cuidados, com pinças, ‘tás a ver…
– Agora é que está com escrúpulos?
– Quais escrúpulos, Zé… A gaja quer é dar um ar mais sério, como se não andassem atrás de ti como cães ao bofe... O Noddy disse-me que a ideia que a gaja quer passar é que não está contra ti, que não está obcecada em atacar-te, pá… É uma coisa mais suave, mais subtil e assim faz render o peixe, assa-nos em lume brando até às eleições e nem podes falar em campanha contra ti...
– Estou a ver. Se for preciso, a gaja nem fala no meu nome!
– É essa a estratégia, pá.
– Estou fodido!
– Deixam-te no meio da tenaz e vão-na fechando, estás a ver? Mas sem nunca dizerem directamente que és tu que lá estás, ainda que o deixem mais do que subentendido... És tu e estão a chegar a ti mas nunca te vão nomear...
– Foda-se!
– Assim, não só vão dizendo que só apresentam factos objectivos, como dão a entender que te têm na mão e que podem rebentar com o resto a todo o instante e, o melhor de tudo, é que ainda podem recuar a qualquer momento e passar as brasas para outra peça...
– A peça sou eu?
– És.
– Olha que bela merda de metáfora de que te lembraste... Agora sou um bocado de carne, é?!
– Ahn?... Desculpa, tens razão... mas percebeste a ideia, não percebeste?
– E ainda por cima a velha é que se vai ficar a rir!... A sonsa!...
– Pois, isto para os gajos é como sopa no mel...
– Nunca percebi essa merda, pá! Que raio é que tem a sopa que ver com o mel?! Sopa no mel! É mas é a sorte grande p’á velha e p’ós citrinos... Cambada!
– A sorte grande...
– E a gaja, pá!... Essa gaja!... No fim de me foder a gaja vai ter de ser operada, pá!
– Operada? Operada a quê?
– À boca! Com tanta alegria, aquela bocarra nunca mais se fecha, pá. E se não for operada o sorriso engole as orelhas... A boca dá a volta à cabeça!
– Ah!
– Não te rias, pá! Isto é muito sério...
– Desculpa, tens razão...
– Tu já viste o que é a gaja estar a apresentar o pasquim abjecto e, de repente, a boca dar a volta à cabeça e a parte de cima cair, ficar só a língua e o maxilar inferior? E mesmo assim a gaja não se calar, sempre a matraquilhar… Sempre treca-treca, treca-treca, só para me lixar o juízo? Era horrível...
– Ah! Aí até o velho gagá ficava com bom aspecto, com uma partenaire dessas...
– Pois era! E esse também não se calava e depois ainda havia de vir o outro, com aqueles beiços caídos de desmamado, mandar umas postas de pescada como se andasse desde pequeno a pensar naquilo... Havia de ser um espectáculo...
– Bolas!... Deixa-me respirar...
– Mas, afinal, ouve lá, fizeste-me gastar um cartão, para quê?... Olha que eu tenho impressão que a Nanda tem um bufo qualquer e controla-me os cartões de telemóvel que eu gasto, pá… O que é que eu lhe digo?
– Não... Ó Zé... Eu liguei porque tens de decidir…
– Decidir o quê?
– Se dizemos aos Bob para dizer aos...
– Sabes que eu comprei o single...
– Desculpa?
– Comprei o single da gaja... Sempre havia de me ter outra consideração...
– Qual single?
– E eu disse-lhe... Ainda por cima, disse-lhe que tinha comprado.
– Qual single?
– "Foram Cardos, Foram Prosas", pá! Qual é que havia de ser?
– Compraste?
– Nem me digas nada...
– Eu gostava mais da Adelaide Ferreira, do "Baby Suicida".
– Olha... E eu mais valia, essa, pelo menos, nunca me espetou nenhuma faca nas costas.
– E a irmã?
– Essa não cantava ou cantava?
– O que é que isso interessa? Achas que alguém se interessava pela voz dela?
– Ah! Isso é verdade, pá. Bem visto!... Mas o single, ainda gostava de saber onde é que isso anda... Devolvia-lho! Esmigalhava-o todinho e mandava-lho!
– Deixa lá isso, Zé. Agora tens é de decidir se falo com o Bob...
– Qual o Bob?... O Bob Esponja?
– Não, o construtor. O Esponja já era, pá, agora anda armado em sério. O Bob, o construtor.
– Ah, esse!
– Pois e temos de lhe dizer se dá o recado aos espanhóis para a limpar da grelha...
– À cantora da treta?
– Pois...
– Isso era uma bomba, pá! Se fizéssemos isso estávamos fo… lixados. Boa noite.
– É a Nanda?
– É. O Pedro manda-te beijinhos.
– Eu?!
– Ela retribui. Ele agradece.
– Eu?!
– Já se foi embora. Rápido: mas qual é a vantagem?
– Os danos são controláveis até sexta, vá lá, quanto muito até domingo. Sexta e sábado andamos a apanhar bonés, depois a coisa acalma e não temos de gramar com mísseis todas as sextas-feiras. A gaja quer marcar a agenda, pá, pelo menos nessa parte...
– E nós dizíamos ou mandávamos dizer... De nós só fala o Augusto, assim como assim ninguém lhe liga nenhuma... Reduzimos os danos...
– E fica-se sem saber se foram os espanhóis...
– Sim e, bem vistas as coisas, para nós é o pior que nos podia acontecer. Somos os últimos interessados em que fizessem isso à gaja... Estou a ver... No fim ainda passo por vítima...
– Põe-se alguém a dizer que saiu a sorte grande à velha e lembra-se o Santana e o Marcelo...
– Bem visto!... Ah... mas tens de dizer ao Bob para que se houver alguma coisa já feita contra mim que deixem passar... Que emitam.
– Achas que é melhor?
– É a cereja no topo do bolo, pá!... O que houver contra mim passa na mesma mas, ao mesmo tempo, já ninguém vai falar nisso, só se vai falar na censura.
– Temos de evitar o termo...
– Está evitado por natureza, pá, porque o que a gaja tiver agora vai para o ar na mesma, estás a ver, não há censura...
– Estamos safos... Vou já ligar ao Bob!
– Construtor!
– Claro!
– Porreiro, pá!

4 de Set de 2009

Portas Fechadas

You're lost little girl
You're lost
Tell me who
Are you?

Deixaste fugir alguém que nunca tiveste.
Não quiseste.
Agarras-te a ti sem saber quem és.
Quem podias ser,
Quem queres ser.

Estás só e só pensas quão só podes ficar.
Só.
A noite estrangula-te, devolve-te a rapariguinha que foste e amaldiçoa-te com o que podias ter sido.
Estás só, tendo por companhia um nó na garganta, um grito por soltar, uma lágrima por verter.
Estás só e não consegues sorrir.
Nem chorar.
Tell me who, are you?

Doors, em rascunho de 2007

1 de Set de 2009

autobiografia

Regresso.
Para quê?, pergunto.
Ou para onde?

Ou mesmo para quem?
(não escrevemos sempre para alguém? eu não acho que escrevamos para nós mesmos. Eu, pelo menos, e mesmo que ninguém me leia, não escrevo para mim: há sempre uma esperança que alguém apareça e leia – que goste, que diga alguma coisa, são outros quinhentos!). Adiante.
Um mês depois regresso. Um mês depois em que tudo muda para que tudo fique igual. Ou talvez não.
Primeiro há o atropelo da idade: 39 anos; que já tenho desde Março e que, portanto, está a ser um atropelamento lento mas eficaz. A consciência de que o corpo (e a cabeça, já agora) é o que é e que o velho brocado “elas não matam mas moem” já não é só uma coisa que se ouve ou que se diz mas que se sente. A capacidade de regeneração, de acordar no outro dia e o dia ser efectivamente outro, já era. Foi-se! e o pior é que martela!
Segundo, consequências do primeiro:
– Fuma?
– Pouco.
(careta entre o tédio e a indisposição) – E isso é o quê?
– Um, dois cigarros por dia.
(careta entre a descrença e a vontade de me dar com um martelo (foi-se!) na cabeça) – É?
– É, porquê?
– E de resto?
– De resto?
– Sim, é saudável?
– Penso que sim mas agora tenho dúvidas…
– Porquê?
– Primeiro porque vim aqui, segundo porque tem estado a fazer caretas pouco animadoras, terceiro porque me perguntou se eu fumava e não acreditou na minha resposta.
– Tinha razões para duvidar?
– Não.
– É que o senhor teve uma trombose…
(não vi mas devo ter feito uma careta qualquer)
– uma trombose ocular – concluiu o médico.
Terceiro
Bem podia deitar-me e acordar de manhã que não havia maneira de ficar a ver bem.
– E isso não ia acontecer – rosna o médico.
Quarto
Avastin.
e tinha o olho esquerdo parecia um cylon.
Quinto
Rapei o cabelo. Rapei mesmo.
Sexto
O cabelo cresceu. A vista recuperou mas pouco, a trombose ainda está a ganhar… puta!
E pronto, era isto.
Agora que falei de mim, o que, na verdade, não interessa nada, volto à ficção, o que também interessa muito pouco.

28 de Jul de 2009

A Fruta

– Um banana – disse ela à boca cheia. – O meu marido é um banana!
– E temos de falar dele? Eu acho…
– Sabes porque é que eu faço isto? – interrompeu ela, sem lhe dar importância.
Ele encolheu os ombros, quase aborrecido.
– Por mim? – sugeriu o homem num murmúrio teatral.
– Por ti? – troçou ela, genuinamente espantada com a desfaçatez dele.
– Porque gostas de mim? – completou ele.
– Ah… Sim, claro – emendou a mulher, após uma ligeira pausa em que lhe notou o cenho franzido e o beiço descaído. – Também – declarou como se lhe fizesse um favor.
– Sim, claro – repetiu ele, divertido mas a fingir-se desconsolado. – E?
– E?
– E, além disso, porque é que fazes isto?
– Porque o Vítor é um banana!
– Um banana?!
– Um banana!
– Que fruta tão desenxabida.
– Que fruta, pá! Um banana: um lorpa, um pateta, um palerma, um tolo, um idiota sem vontade própria! É o que o Vítor é!
– Eu percebi – disse ele. – Sabes que a banana não é um fruto?
– Não?
– Não.
– É o quê?
– Uma pseudobaga.
– Uma pseudobaga?! – repetiu ela, com ar enojado. – Que raio é isso?
– Não sei mas deve ter que ver com o facto de a bananeira não ser uma árvore.
– Não?... Então é o quê?
– Uma planta herbácea…
– Quer dizer… – a mulher interrompeu o homem, obrigando-o ao silêncio. – Quer dizer… – repetiu, hesitante. Fez uma pausa, sentou-se e apreciou o corpo nu do amante deitado na cama ao seu lado enquanto dava uma passa lenta no cigarro, sentiu a ideia fluir e concluiu satisfeita: – Quer dizer que o Vítor, esse banana, nem uma fruta é! É uma pseudobaga, seja lá o que isso for, de uma planta que nem é uma árvore… É mesmo dele… Que pouca sorte!

23 de Jul de 2009

conversa

– E afinal, jantaram?
– Diz?
– Sempre foste jantar com ele?
– Fui.
– E?
– E? E o quê?
– O que aconteceu?
– Já passaram mais de quinze dias, Joana…
– Sim, mas nós nunca mais falámos.
– Não sei se quero falar nisso.
– Não me digas que ainda não o limpaste.
– Não o limpei?! Não o limpei de onde?
– Do sistema… Do teu sistema… Pelos vistos, não, pois não?
– Ah!... Acho que não.
– E foi pior.
– Estás a perguntar?
– Não, estou a dizer.
– Não me digas que já me tinhas dito!
– Não digo.
– Obrigado.
– Mas podia dizer, não era?
– Vai-te lixar!
– Não podia?
– Podias. Claro que podias e o pior é que eu acho que sempre soube que tinhas razão, não era boa ideia… Não foi boa ideia.
– Eu achava que era.
– Achavas que era, o quê?!
– Que era boa ideia…
– Desculpa?! Boa ideia?! Tu… Tu achavas que era boa ideia? Tu disseste-me sempre que ia cometer um erro terrível, um erro de proporções bíblicas. “Vais ficar com uma história de fazer chorar as pedras da calçada”, “com um argumento de uma tragédia de cortar os pulsos”, tu disseste isto e agora dizes-me que achavas que era boa ideia?
– Ah! Essas frases eram boas, de vez em quando digo umas coisas engraçadas…. Mas sabes que eu sou um bocadinho exagerada, às vezes, e entusiasmo-me com os meus próprios exageros, tu já me conheces…
– Mas tinhas razão.
– Ficaste com um argumento?
– Vai-te lixar!... Fiquei com um argumento de uma comédia, de uma comédia de uma mulher de trinta anos à beira de um ataque de nervos…
– Trinta anos?
– Trinta e picos… Isso é um pormenor. O que interessa é o estar à beira de um ataque de nervos.
– Mas esse filme já foi feito!
– Sim, mas está em rodagem diariamente, provavelmente, a todas as horas, a todos os minutos, e eu tive o meu, com cenas verdadeiramente cinematográficas, naquele dia, o resto do tempo não servia para filmar, é um mal-estar difuso, uma incompreensão que me envolve como um nevoeiro permanente…
– E uma auto-comiseração circular!
– Bolas! Obrigadinha!... És uma grande ajuda!... E o que é isso, uma auto-comiseração circular? Pena de rabo na boca?!
– Pena de rabo na boca?! Boa! Ah!... Exactamente! Isso mesmo! Pena de rabo na boca!
– Achas que eu tenho pena de mim própria?
– Todas temos.
– E tu?... Tu também sofres de auto-comiseração circular?
– De pena de rabo na boca?
– Sim. Tens?
– Todas temos mas nem todas temos quase sempre e, felizmente, muito poucas temos sempre.
– Eu não tenho sempre!
– Pois não, era melhor... Achas que eu estava aqui a falar contigo se tu fosses assim?...Tens o normal, acho...
– E tu tens muito pouca!
– Tento mas… mas nós não estamos a falar de mim, estamos a falar de ti. Do teu jantar. Do teu jantar com ele. E afinal?
– Afinal, o quê?
– Que cenas foram essas?
– Não queiras saber…
– Quero! Quero mesmo saber!
– Outro dia… Acho que, por agora, ainda quero saborear a minha pena de rabo na boca…
– Com arroz de tomate?
– Não, com arroz branco!

17 de Jul de 2009

Depois do jantar

Tirou o cigarro ainda apagado da boca, obrigando o amigo que o ia acender a olhá-lo enquanto mantinha o isqueiro aceso em punho, e perguntou:
– Montaste-a?
Tornou a pôr o cigarro na boca e, ante o inerte pasmo do portador do isqueiro, debruçou-se para a chama e acendeu o cigarro.
A pergunta feita a seco, num tom de voz pouco (ou nada; na verdade: nada) discreto, causou no portador da chama e sujeito passivo da questão notória estupefacção e uma intensa escaldadela do polegar, que ficou esquecido na roldana.
– Diz? – perguntou Paulo, depois de abafar um palavrão e passar a ponta do polegar entre os lábios para o humedecer.
– Montaste-a? – repetiu o fumador.
– Se a montei?
– Sim, bolas!... Montaste-a ou não?
Paulo arrumou o isqueiro no bolso, olhou em redor, evitou o olhar inquisidor de Mário, sorriu timidamente para Marta quando os seus olhares se cruzaram, concentrou-se na parede atrás de Mário, lembrando-se de algumas das várias vezes em que o fizera naquela própria sala, no sofá onde agora ela se sentava, e, sem saber o que responder ao amigo: “Que merda de pergunta!”, esperou que ele esclarecesse melhor o que queria saber ou que o cigarro ganhasse cinza que merecesse um cinzeiro que ele teria de ir buscar.
Entre a aguardente velha e o cigarro, Mário manteve-se calado e a cinza chegou à adolescência.
– Vou buscar um cinzeiro – disse Paulo.
Mário olhou para o cigarro e concordou com um aceno.

– O que foi? – perguntou Marta, aproveitando a proximidade de Paulo. O cinzeiro estava na mesa junto ao sofá.
Paulo agarrou no cinzeiro, fez um sorriso de circunstância e aproximou-se da cara de Marta, sussurrando-lhe ao ouvido:
– Sabes o que me perguntou o Mário?
Ela abanou a cabeça, negando.
– Se eu te tinha montado…
– Desculpa?
– Fala baixo – murmurou Paulo encostado ao ouvido da mulher.
Sorriram ambos para os amigos sentados na sala e para Mário ainda de pé, alcoolicamente esgazeado, olhando-os fixamente. Com ele não trocaram sorrisos.
– Ele está bêbado! – censurou Marta.
– E perguntou se eu te montei – acrescentou Paulo, achando, pela primeira vez, graça à descarada pergunta.
– Achas graça?
– Não – respondeu prontamente Paulo, certo de que Marta nunca leria esta história ou falaria com o narrador.
– Leva-lhe o cinzeiro – ordenou a mulher, subitamente mais preocupada com o chão do que com a devassa da sua vida sexual.
– E digo-lhe o quê?
– Para pôr a cinza, que é para não me sujar o chão!

De cinzeiro pedinchão em riste, Paulo aproximou-se de Mário e, subitamente, desceu sobre ele um manto de desconfiança em forma de uma epifania catastrófica:

“E se ele não estiver a falar dela?
E se ela, estúpida e inocentemente alertada por mim, por causa da minha bacoca vaidade, absurda mania de ser engraçado e de falar dos outros quando devia estar bem caladinho,
E se ela for falar com ele?” pensou em pânico, olhando o ar debochado de bêbado verbalmente incontinente do amigo de copo na mão, cabeleira desgrenhada e olhar alucinado em busca de corpos ou partes visíveis ou imaginadas de corpos femininos para mitigar a sua desvairada gula sexual.
“Cus e mamas… Cus e mamas é o que o gajo está à procura!
Montaste-a?
Montaste-A?
E se a a não for ela?
E se ela for falar com ele, meter-se com ele… E se ela, sorridente e simpática, de garrafa na mão pronta a reabastecê-lo, for tirar nabos da púcara?”
Estudou o amigo, enquanto este depositava a envelhecida cinza no cinzeiro sem abandonar a sua explícita demanda por cus e mamas.
– Grande pomada – afirmou Mário, alheio à torrente de pensamentos que esmagava o anfitrião.
“E se o gajo, espicaçado pelo álcool e pela minha própria idiotice de ir repetir à Marta o que ele me tinha dito, se puser com grandes explicações ou…, pior, muito pior, se o gajo se calar?, se o gajo pudicamente nada disser?, se o gajo se tomar de dores alheias e de comprometido defensor de segredos alheios, os meus segredos, e nada lhe disser? E só lhe responder com atabalhoadas e incongruentes evasivas?
Estou lixado!...
Cus e mamas é só o que o gajo está a ver se vê.”
– Às vezes – acabou por responder Paulo, seguindo a exploração ocular de Mário.
– Às vezes, o quê? – perguntou Mário, esquecido do seu anterior comentário.
– A pomada – esclareceu Paulo, confundindo Mário. – Só que não é pomada é gel.
– Gel?! – repetiu Mário, olhando o interior do copo. – Mas tu estás a falar exactamente de quê?
Paulo engoliu em seco, a conversa estava-lhe a escapar completamente “tal como os cus e as mamas a ele” notou com um sorriso. “Acho que bebemos demais” concluiu.
– E então? – deixou escapar Paulo, enquanto fazia contas de cabeça ao que já bebera.
– Então, o quê?
– Os cus e as mamas?
Mário soltou uma gargalhada ruidosa, enquanto estudava o amigo, ainda de cinzeiro na mão e ar absolutamente aterrorizado, baixou o tom, fez uma pausa para ganhar fôlego e indagou com ar sério:
– Tu não estás bem, pois não?
Paulo que só quando se ouvira dizer cus e mamas percebera que o havia dito – o que é perfeitamente natural, pois, antes de o dizer não podia perceber que o havia dito – embasbacou não tanto pelo evidência de só se ter ouvido dizer depois de o ter dito mas, essencialmente, por o ter dito alto, o ter perguntado e, ainda por cima, ter apreendido no acto de o dizer, de se ouvir dizer e da expressão genuinamente cómica e enternecida de Mário quando o ouvira, que era ele – ele-ele e não ele-não ele – que estava bêbado.
– Cus e mamas – tornou a ouvir-se balbuciar lá muito ao fundo como se ele já não fosse ele mas ele-não ele… – Outro! – exclamou satisfeito por se lembrar do conceito. – Ele que não é ele é outro…
O amigo fez uma careta preocupada:
– E agora, estás a falar de quê?
– Eu que não sou eu, és tu.
– Não necessariamente – contradisse-o Mário. – Posso ser eu ou outro.
– Hoje já não a monto – confessou Paulo, desanimado, encostando-se a Mário e empurrando-o contra a estante.
– Mas sempre foste tu que a montaste?
– Desculpa?! – gritou Paulo, ofendido.
Todos os convidados se viraram para eles.
“Uhhh!” Urrou em silêncio Mário, contemplativo. “Mamas!”
Paulo tentou esboçar um sorriso colectivo e um aceno com a mão livre. Não conseguiu nem uma coisa nem outra: a cara numa amálgama de trejeitos sem nexo, a mão a enxotar uma nuvem de melgas imaginárias.
A custo, Mário desencostou-se do móvel e pôs o braço sobre o inerte ombro de Paulo, tentando dar um ar de normalidade ébria à coisa para evitar os olhares fixos de toda a gente.
“Pode ser que elas se virem!” meditou Mário babando na expectativa. “Cus! Nádegas!”
– Ouve lá – Mário falava baixa e pausadamente –, afinal de contas, tu estás a falar de quê?
Paulo olhou-o como se o visse pela primeira vez, queria soltar-se do seu abraço justo e sufocante mas sabia que se o tentasse muito corria o risco de largar o cinzeiro ou estatelar-se. Nenhuma das hipóteses era passível de escolha. Endireitou-se ligeiramente, cruzou o olhar com o da mulher e perdeu meia grama, pelo menos, de grau de alcoolemia. Ficou direito e mostrou-lhe o cinzeiro intacto, sem perdas de cinza. Ficou orgulhoso, muito orgulhoso e, acto contínuo, diminuiu o nível de alerta alcoólico em que se colocara. “Amarelo” estabeleceu.
– O que é que tu percebeste, pá? – insistiu Mário, tentando nova abordagem, pronto a largar o anfitrião assim que a coisa fosse minimamente esclarecida. Havia oito ou dez nádegas que mereciam uma aproximação insinuante.
– O que é que tu me perguntaste?
“É pena é nem todas pertencerem aos mesmos cus!” gracejou Mário, reanalisando o número de nádegas que o mereciam.
– Quando?
– Quando eu te acendi o cigarro – disse Paulo. Os olhares de Marta eram lasers de gurosans concentrados, muito concentrados, e o facto de se manter focado a equilibrar o cinzeiro e ao mesmo tempo a evitar o ataque dos lasers de gurosans da mulher, facilitavam-lhe o regresso à vida semi-consciente e quase-inteligente.
“Dois conjuntos de mamas e cus” concluiu Mário, ao fim de várias análises, reanálises e contra-análises. “Hummm…. Os dois conjuntos juntos! Ah!... Isso é que era de valor!” sonhou.
– Se tinhas sido tu que montaste – respondeu Mário, tirando o braço de cima de Paulo – a estante – concluiu.
– A estante?! – mastigou Paulo.
– A estante – disse Mário. – O que querias tu montar, pá?
– A estante?! – regurgitou Paulo, apardalado. – Ah!
Mário disse bê, aproveitou a ausência momentânea de vento em volta de Paulo, que se mantinha direito e pouco oscilante e arrancou em busca da felicidade. Pares de felicidade.

14 de Jul de 2009

escuta 14.07.09-14:57

– Está, doutora?
– Sim, quem fala?
– Sou eu, o Cardoso.

– Ah! Doutor, está a ligar da instituição… o número é sempre o mesmo, nunca sabemos com quem estamos a falar. Diga.

– A doutora está onde?

– Estou a sair do escritório, vou já para aí…

– A nossa reunião era a que horas?

– É agora, às três. Porquê?

– É que…

– Estou a chegar à cave, doutor, não sei se fico sem rede…

– Eu sou rápido…

– Não precisa, doutor, temos tempo… Por mim, temos muito tempo… todo o tempo do mundo.

– Não estava a dizer que ia ficar sem rede?

– Ah! Sem rede?! Ah! Sim… Desculpe, mas parece que não, já cá estou, doutor, já estou cá dentro.

– Ah! Bom, então…

– E o doutor também.

– Eu?! Eu também?!... Eu também, o quê?

– Está todo cá dentro.

– Diga?

– É uma forma de expressão, doutor…

– Ah! Bem… Pois… Se é assim…

– Não gostava, doutor?

– De quê?

– De estar todo cá dentro.

– Todo dentro de quê?

– Todo cá dentro, homem!

– Na cave?

– Qual cave?!

– A doutora está a falar de quê?

– Eu?

– Sim, a doutora. Está a falar de quê?

– Olhe, já estou no carro… Se isto for abaixo é por causa do sistema de mãos livres…

– Então, deixe estar, já falamos.

– Eu gosto do carro. Sempre gostei.

– Diga?

– Estava a dizer que gosto de carros, são agradáveis… Faz-se muita coisa nos carros…

– Faz-se?

– Claro que se faz! Toda a gente faz.

– É capaz… mas eu estava a ligar porque…

– O doutor gosta?

– De quê?

– De fazer coisas nos carros… Hummm… O doutor é maneirinho, deve ser bom no carro.

– Em qual carro?

– Diga?

– Em qual carro?

– Em qual carro?... Ah!... Isso é um convite, doutor?... Está muito atrevido!

– Um convite?!

– Não me estava a perguntar: “Em qual carro?”

– Estava.

– No seu ou no meu?

– O quê?

– Hum… O quê?!... O doutor é que sabe, o doutor é que me estava a convidar. Eu já estou aqui e a ir para aí…

– Onde?

– Cá dentro.

– E eu?

– É só querer…

– Não… Ahn… Não era isso que eu queria perguntar.

– Espero por si?

– Espera por mim… Mas a doutora não vem cá ter?

– Onde?

– Aqui.

– Está na garagem?

– Qual garagem?

– Do instituto.

– Não, estou no gabinete.

– No gabinete, doutor?

– Sim.

– No seu gabinete?

– Sim.

– No seu gabinete do grande sofá de pele?

– Hã!?... Sim…

– Ah! Então espere, doutor, espere, que eu estou já a chegar!